domingo, 7 de abril de 2013

Descompasso

Nasci do susto do ensejo
Do arrepio cru do desejo
Escapei fugidia de um encontro fulgás
Da loucura ácida de um beijo morto.

Estou um buraco sem fim
Dos dias vividos à esmo
Embaralhados desesperos
Que dificultam meu respirar.

Sou filha única do descontrole
Do tédio, da ira e do sem–fim.
Essa origem desconhecida
Verteu o breu que se afunda em mim.

Rabisco cartas que eu não vou enviar
Para nenhum canto desse mundo cão.
Ensaio passos que eu não vou dançar
Afogo em lágrimas essa indecisão.


Libertei você da minha mente
Soltei-o do pote de mel
Desacorrentei-o daquela gaveta
Desfiz as nuvens, tingindo o céu.

E você voou para o distante
Onde os meus olhos não podem ver.
Agora eu posso te imaginar
Um pássaro fosco longe do altar.

Contemplo o invisível sereno brando
Sem ter nada palpável nas mãos.
Planos trágicos eu edifico
Sem temer o sonho ancestral.

Perdi meus medos
Perdi meus vícios
Perdi a vontade de esperar.



Doente demente

Sinto-me passado
Sinto-me passada
Tal qual fantasma
Morta.Enterrada.

Sinto-me doente
Sem cura. Demente.
Apagada. Afogada
Em águas efervescentes.

Corro desvairada
Por dias à fio.
Sei lá pelo quê
Sei lá para onde.

Sinto-me um espasmo
Um espectro. Um não-nada
À beira de um caminho
Onde não há estrada.

Se risos de escudo
Fazem-me engraçada
É pura comédia.
Trágica fachada.

Sinto-me a parede
Imóvel. Ilustrada.
Doem artifícios
Para o branco do nada.

Sinto-me a atriz de um cinema mudo
A cantora de um bar do subúrbio
A doente. A ausente.
A sempre louca demente.

Quanta loucura, óh deus penitente!!
Minhas chagas abertas
Minhas eternas correntes.

Diane

terça-feira, 19 de março de 2013

Não sei amar

Quando amo, fico doente.
Sinto-me fraca, burra, demente.
E é por isso e tudo mais
Que já não embarco. Fico no cais.

Quando o fascínio me embriaga
Sinto-me carne, sentido. Mais nada...
Não há razão que me oriente
Pois, quando amo, fico dormente.

Quando Chopin me toca os ouvidos
E as borboletas dançam no estômago
Eu me reviro inteira do avesso
Dos pés à cabeça, estremeço no âmago.

Titubeio, Venero, tropeço.
Fragilizo, vulnerável. Retrocesso.
Emudeço. Não me meço
E transbordo, desconexo.

Quando eu amo, não sou eu.
Fico escrava do desejo.
Perambulo pelos becos
Vendo almas. Compro beijos.

Quando eu amo, vivo instável.
Viro noites, dobro tardes,
Remoendo mil demências
De consequências deploráveis.

E é por saber-me assim
Intransigente, ao amar,
Que construí, nos confins,
Um templo sacro distante. Um altar.
E toda vez que enlouqueço
Me isolo.Fujo.Até me reabilitar.
Suspensões


À Zelda Fitzgerald


Tanto do que eu fiquei de lhe dar
Ainda pulsa em mim...
“A Bailarina” de Egon Schiele
Os poemas (de alma) que não escrevi
Os sorrisos descompromissados
E inesperadamente felizes (a rir de mim mesma)
E de minha dura seriedade balzaquiana.

Agora sigo os meus (des)caminhos
Como quem retoma uma estrada
Da qual jamais deveria ter me desviado.
E se eu não tivesse me afastado da estrada de antes?
E se...?? E se...??? E se ... ???

Luto com minhas entranhas para não guardar dores
Travo batalhas diárias para não alimentar ódios viscerais
Passeios mentais entre presente e passado vão e vem.
Entre oscilações de humor que só agora compreendo.

Diagnosticaram-me louca. Uma ameaça àquele que um dia amei?
Uma pólvora suicida. Possível Semente da culpa alheia?
Eterno tormento de uma alma gloriosamente radiante...
Eu seria a ruína de um jovem gênio. Eu... Uma quase demente.

Palavras que feriram e arrancaram em segundos um amor puro do peito.
Punhaladas mais nocivas que mil balas de revólver à queima roupa.
Assumidamente a cumplicidade de anos a fio foi violada.

Em nome de quê? (ou quem?)


Entorpeço-me com narcóticos controladores de
Sentimentos e (Res) Sentimentos.
O que dói em mim? Já não sei.
O tempo “perdido” em que me enganei com um “estranho conhecido”, talvez.

domingo, 17 de março de 2013

Do nada que não há

Hoje acordei de mim e de todos que me habitaram
De todos os que eu senti [ Ou que me menti ] nas superfícies enfumaçadas
E que não passaram de fagulhas sujas [Pobres almas penadas]
Apenas sobrevoaram ou rastejaram até o fundo de mim, mas não mergulharam.


Hoje eu acordei de mim mesma e fiquei estarrecidamente pasma
Sem aquelas mãos entrelaçadas que enlaçam um mundo de possibilidades
Agora falta-me o ar que antes não me faltava. Não há mais que nada.
[Mas eu nunca desejei entrelaçar o mundo mesmo... E isso me acalma.]

E porque é que tem de haver rima e sentido se tudo nos escapa
Nas ‘corriqueirices’ desse cotidiano-lixo de meias palavras?
Em que rumo caminham os ponteiros do relógio-máquina
Horas essas ,que fogem,e que não absorvem nada?

“Tudo é vago e incompleto”: Isso em mim cala.
Silenciosamente compreendo, com a exatidão mecânica dos ajustados,
A lógica onisciente e abstrata que move o universo e que impõe aceitação.
A irregularidade de alguns dias é apenas uma peça pregada por um deus enganador
E assim seguimos, nessa gangorra mórbida,
Acreditando que somos livres para escolher algo.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Você, que não existe.

Você, que ainda é sonho
(minha pura fantasia)
Devolvestes minha inspiração, minha poesia.
Sacudiu meu corpo pasmo.Jorrou minhas veias.

Você, que só existe enquanto eu durmo
(Persiste nesse meu obscuro submundo.)
Arrastou minhas entranhas ao país das maravilhas
Lançou fogo aos meus olhos presos no escuro.

Você, que eu não conheço
(só pressinto!)
Me leva á vagar pelo infinito.
Faz festa em minha alma estrangeira
Dá voz aos meus desejos inauditos.

Você, que me espera em alguma rua
Correndo entre os carros, na avenida,
Prevê meus passos, meus anseios...
Que já me conhecia de outras vidas.