sábado, 18 de fevereiro de 2012

Mito,Metáfora,Filosofia ou salada mista!!?


Pedi à métrica a medida
De um simplório verso verdadeiro.
Roguei por deuses indivisíveis
E apareceu-me sempre o mesmo.


Procurei, entre becos, o centro de tudo
Quase a desmaiar, em um mundo louco
Por alguns instantes,julguei certezas
Em outros momentos, temi o oco.


No meio do caminho me despi
De todas as cicatrizes e dos sonhos
Nada me restou do que vivi
Além de um corpo descalço e absorto.


Eu fui sonho.Eu fui dor e desespero
Fui matéria animada pelo mistério
Firmei pactos com entidades invisíveis
E agora sou nada.Alimento os vermes.


A garrafa mágica do gênio da lâmpada ou o Oráculo de Delfos?Qual mortal não hesitaria mil vezes antes de escolher entre ter três desejos "terrenos" realizados ou obter profecias sobre o seu futuro e revelações sobre o seu passado?Não obstante,é evidente a busca frenética dos homens por verdades,sejam elas individuais ou universais.
Os homens compõem conceitos,definições,tudo isso na tentativa de afastar o assombro da dúvida.Olhar para o universo,procurando respostas satisfatórias aos mistérios da existência é também uma forma de olhar para dentro de si próprio.É com esse intuito que se desenvolvem, ao longo da história, teorias envoltas de simbologias diretamente conectadas às especulações cotidianas dos homens. O tempo todo procuramos vestígios que comprovem nossa origem e nosso destino.
O pré-socrático Xenófanes de Colofão, em atitude de reprovação à atribuição de traços antropomórficos aos deuses, propôs aos gregos um único deus, que era uma esfera eterna. Tal figura (esfera) possui o significado do arquétipo da perfeição, visto que "todos os pontos da superfície se eqüidistam do centro". Essa analogia foi utilizada, ainda, por outros pré-socráticos (Empédocles, Parmênides,etc.)que, dentre outras teorias, tinham como objetivo comum a "busca da verdade".
Difícil, para mim, conceber uma esfera infinita que jamais teve início e que está encerrada em sua solidão circular.Confesso a graciosidade poética de tal suposição, no entanto, a considero indigesta.
Cientistas,filósofos e religiosos incitam, cada qual à sua maneira, teorias explicativas para o universo e todas as coisas pertencentes à ele. Acontece que, embora três reinos abarquem as possibilidades humanas de conhecimento (animal, vegetal e mineral), existem reinos ainda desconhecidos e inatingíveis ao entendimento.Mistérios que nossos sentidos não compreendem.Não fosse esse detalhe sutil da limitação das nossas percepções sensíveis,talvez a humanidade não ansiasse demasiadamente por pontos finais.No entanto, nossos olhos não podem ver para além do horizonte,nossos ouvidos não podem ouvir a sinfonia dos astros que se movem no espaço,nossas narinas não podem sentir o cheiro das estrelas, nossas mãos não podem tocar as abóbodas celestes nem os nossos lábios podem degustar o néctar dos possíveis deuses.Limitar talvez seja, ao mesmo tempo, intrigar a curiosidade, instigar a imaginação e , or fim, desafiar a razão.
Quando Jorge Luis Borges cita a metáfora de Deus, dizendo que "Deus é um círculo cujo centro está em toda parte e a circunferência,em nenhuma.",me faz pensar em uma entidade que invade sem se deixar ser invadida.Conhece sem deixar-se conhecer.
A senda que afirma a existência desse fio condutor na essência dos homens, atribui à humanidade um caráter enigmático, cuja obscuridade transcendente reafirma o egoísmo sacro de um deus engenhoso e perverso, que abandona suas criaturas na escuridão horripilante de suas próprias mentes, pregando-lhes peças e negando-lhes a luz do supremo saber... Imputa-lhes a dor sem ofertar-lhes o analgésico.
Considerando que "o mundo é o efeito infinito de uma causa infinita",cabe-nos perguntar onde esteve a "Causa infinita" antes que o seu "Efeito infinito" tivesse sido resultado.Onde situava-se esse Deus antes do mundo?Se a Sua onisciência é tamanha, com qual finalidade criou suas criaturas ignóbeis e insignificantes?
Se a perfeição consiste na circunferência, com o Seu centro,que a tudo abarca,talvez houvesse mais simetria se esse globo de perfeição fosse oco e silencioso.Isento da presença indiferente da humanidade.
Ao mesmo tempo,se brincarmos de acreditar nessa esfera divina, a impressão que temos é a de que os homens foram presenteados com um nível de percepção considerável e que houve um tempo em que gozou o êxtase completo de todos os seus sentidos plenos, no entanto, com o passar dos séculos e com os seus inúmeros deslizes de caráter,o ser misericordioso que o criou,foi arrancando-lhe,pouco a pouco,todos os seus atributos.É por isso que vivemos dias de superficiais especulações, onde os seres mais geniais como Shakespeare, são tão somente capazes de doutrinar que "existe muito mais entre o céu e a terra do que pode sonhar a nossa vã filosofia".
Todos os lugares são de Deus.Nenhum lugar é do homem.Entretanto,na condição de homem,não resignar-se,dedicando-se ao exercício da inquietação especulativa,talvez signifique situar-se ao lado dos demônios e deuses rebaixados por Xenófanes, que tal qual Hermes, escreveu livros onde estavam escritas todas as coisas ("fragmentos de uma suposta biblioteca ilusória").
Perigoso ou não, todos os filósofos e cientistas, de um modo ou de outro, acabam por contrariar a tal "esfera eterna".Ocorre que,verídica ou não,ela jamais pára de girar!Enquanto a esfera gira,nós inventamos mitos e metáforas que expliquem o inexplicável,mas a angústia das aspirações filosóficas talvez sejam resquícios inconscientes das páginas nas quais estavam "escritas todas as coisas" e que não se apagou por completo da mente humana.
Talvez só tenhamos que nos esforçar para livrar-nos do fantasma da amnésia universal que nos foi imposta.