sábado, 10 de dezembro de 2011

Resquícios




O passado é um fantasma.Fantasma que assombra o sono,a fome,a sede e a capacidade de euforia.Um fantasma silencioso e persistente que sussurra nas gotas de chuva que caem no solo.Os pingos latejam no chão e atormentam a imaginação.A noite obscura e calada que engendra,em seu silêncio,o temor e o anseio.O frio desejado pelo corpo,que aguarda o efeito anestésico.O frio que congela a dor do medo...do passado.Mas o passado nem sempre passa.Insistente em suas memórias,vestido de semideus,o passado inibe nossos passos ao longo do caminho não percorrido.Aperta o peito,sufoca a respiração,bombardeia com o seu silêncio de mosteiro insubstancial,inatingível,inalcansável. O seu silêncio agride e fere muito mais do que mil punhaladas espalhadas pelo corpo inteiro.Transforma cada final de tarde em uma morte lenta e duradoura,que se sabe que será repetida no dia posterior e no outro,outro,outro,outro...
Outra.É tarde.
Devaneios
Ilusões
Lágrimas
Lembranças
Contemplação
Sublimação
Idealização
Desejos
Promessas
Perigoso e traiçoeiro como somente ele pode ser,o passado é uma divindade.Onisciente,onipotente e onipresente em quaisquer das estações.
Ele se personifica nos sons de objetos inanimados ou no ruído da cidade para,arrogantemente,esfregar na sua cara quão desprovida de sentido é a sua vida sem ele.
Sua aliada...A memória.Esse "reflexo" mental que se apodera de todos os seus sentidos e te acorrenta por tempo indeterminado ou...por um longo tempo até que seu equilíbrio se esgote e o seu "eu" se massacre de modo a quase inexistir completamente.
Culpas
Derrotas
Remorços
Revoltas
Tristezas
Angústias
Desespero
Dor
Até que um dia, você acorda e,cansado de esperar que o telefone toque,que batam à porta,que chegue a carta,o telegrama,o cartão-postal,as flores... a saudade...
Resolve abrir as portas,as janelas,a mente e o coração...para que o sol entre.
Você expulsa o passado.Inibe a memória.Evita todas as coisas antigas que te conduzam ao regresso.Limita espaços,muda caminhos,dôa roupas,cobre espelhos,esconde quadros.
E deixa o passado passar. Decide viver cada segundo de desespero( "ao final estará mais forte!",dizem),sucumbindo a cada golpe,à lassidão cotidiana de se estar vivo.
Entende,enfim,que a pena é necessária.
O ciclo se fecha.A ferida se fecha.A dor cessa.A memória adormece.
O passado passa.


Diane

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