
Foi em uma terça-feira de lua minguante.Um desses dias em que se acredita numa conspiração oculta dos astros e quando,estranhamente,passado e presente parecem embaralhar-se nas vidas das pessoas.
Uma amiga falara-me do ritual de purificação.Excêntrico ritual aquele!Consistia em lavar as mãos antes de lavar qualquer outra parte do corpo,no momento do banho.De modo que,com as mãos já limpas,retirar-se-ia a imundície de todo o resto do corpo.
Notei,subitamente, quão triste é o homem em sua ânsia por transcendência.Entregando-se ao cárcere obscuro e secreto de sua carne,limita-se à metódica e vazia manutenção de suas vaidades.Lava-se o corpo,de modo a amenizar a sujeira da alma.E assim,esgota-se uma existência varrendo o lixo para debaixo do tapete.
No entanto,algo de incompreensível e ao mesmo tempo inexpressivo instigou-me no desenrolar daquele discurso. Algo que soava como poções de uma fórmula mágica que,por algum motivo desconhecido,ficou escondida nas tradições ancestrais de nossos antepassados.Um mistério sutil que,de certo modo,ressaltava em meu inconsciente,traços ambíguos de arquétipos já quase esquecidos.Isso mexia com o meu imaginário de curiosidade imprudente e, inconvenientemente, infantil.Sentia uma aproximação oriunda às figuras de perfeição(aquelas que são quase macabras)que norteiam nossa cultura ocidental.
Ela falava da simetria incoerente das coisas e da ligação mística dos acontecimentos nas vidas das pessoas(mesmo daquelas pessoas mais desconhecidas e distantes) e eu seguia a imaginar a existência possível de uma dimensão,paralela à nossa,onde tudo já aconteceu e outros de nós já vivenciaram o desfecho de suas histórias.
Nesse enredo de 'deja vu',questionei o caráter manipulador desse universo,que tal qual deus de nossas vontades,impõe-se aos nossos caminhos.De modo que, nunca resta-nos escolha alguma.Pensei,então, em deitar-me e não mais me levantar,na tentativa de desafiar esse deus, corrupto e hostil , que faz de nós seus fantoches.Porém,exitei não conseguir.Ninguém consegue...
Desde então,nada posso fazer sem que me venha à mente a existência de uma réplica minha vivendo em outra dimensão.Vivendo em um universo paralelo.Ás vezes até mesmo chego a suscitar a possibilidade de ser eu mesma essa réplica.
Na hipótese de mundos possíveis,chego a descobrir-me repleta de uma humanidade medíocre.Fatalmente entregue ao misterioso destino.Sinto-me,constantemente,engolida pelo nada.Sou esse nada...
A ideia de ter uma cópia,ou mesmo de ser uma,sufoca meus sentidos.Sinto-me confusa.Tão confusa quanto na primeira vez em que li "A Canção de Amor de J.Alfred Prufrock",na qual Elliot expressa a ânsia de jamais ousar interromper a ordem natural do universo:"Sigamos então,tu e eu,enquanto o poente no céu se estende como um paciente anestesiado sobre a mesa (...) Ousarei comer um pêssego,interferindo no silêncio do universo? (...)"
Muito mais do que a dor da ausência e da falta,sempre temi ter tudo.Agora, que minhas mãos parecem tocar extremidades longínquas do céu,planejo dias de glória sobressaltados de timbres e nuances de felicidade suprema.Eis meu dilema:Como ouso ser feliz?Logo eu,que praguejei por décadas,os precursores da utópica felicidade...Logo eu,que me deleitei ao ler Cioran e Camus.Vivendo guiada pela languidez dos poetas malditos,em tardes infindas de desesperança...Como posso corromper-me,deliberadamente,em circunstâncias corriqueiras e pitorescas?
Nessa angústia regada à culpa de me sentir feliz,gasto meus segundos de êxtase fugidio,açoitando minha alma com acusações de minha consciência.Essa consciência vadia,que tal qual o "morcego" de Algusto dos Anjos,insiste em perturbar a tranquilidade do meu sono.Tão sonhado sono.Tenho vivido como Eva,no paraíso,sob os olhos violentos de Deus e da serpente.Repelida pelo desejo contínuo de saborear a maçã,tenho salivado excessivamente distante dos sóis e das luas desse céu oblíquo de possibilidades passageiras.
Quão escrupulosa pode ser uma alma que não almeja a felicidade?
(...)
Lavo-me dos sonhos.Lavo essa felicidade visceral e invicta que se agrava em minhas veias.Lavo-me desse torpôr furtivo e febril dos meus anseios de fervor voluntarioso e poético.
Agora,lavo minhas mãos.Inicio o ritual que,por uma infinidade de vezes,repito freneticamente.Se me fosse possível,dissolveria o meu corpo na água.Daí em diante,estaria livre da obssessão fatídica que arrasta minhas feridas pelo chão do tempo.
"Sigamos então,tu e eu."Seria confortante acreditar na existência de outra de mim.Outra mais perfeita e menos humana.É dela que me aproximo no momento disforme do meu ritual de redenção.Para onde elas iriam depois?À finitude ou à eternidade das coisas?
Lavo-me porque ainda há esperança e porque ,talvez,num universo paralelo,a outra creia no transpôr das horas e no amanhecer dos nossos olhos em comunhão.Lavo-me porque o ritual é só o que me resta.
Diane

