domingo, 25 de dezembro de 2011

O Ritual


Foi em uma terça-feira de lua minguante.Um desses dias em que se acredita numa conspiração oculta dos astros e quando,estranhamente,passado e presente parecem embaralhar-se nas vidas das pessoas.
Uma amiga falara-me do ritual de purificação.Excêntrico ritual aquele!Consistia em lavar as mãos antes de lavar qualquer outra parte do corpo,no momento do banho.De modo que,com as mãos já limpas,retirar-se-ia a imundície de todo o resto do corpo.
Notei,subitamente, quão triste é o homem em sua ânsia por transcendência.Entregando-se ao cárcere obscuro e secreto de sua carne,limita-se à metódica e vazia manutenção de suas vaidades.Lava-se o corpo,de modo a amenizar a sujeira da alma.E assim,esgota-se uma existência varrendo o lixo para debaixo do tapete.
No entanto,algo de incompreensível e ao mesmo tempo inexpressivo instigou-me no desenrolar daquele discurso. Algo que soava como poções de uma fórmula mágica que,por algum motivo desconhecido,ficou escondida nas tradições ancestrais de nossos antepassados.Um mistério sutil que,de certo modo,ressaltava em meu inconsciente,traços ambíguos de arquétipos já quase esquecidos.Isso mexia com o meu imaginário de curiosidade imprudente e, inconvenientemente, infantil.Sentia uma aproximação oriunda às figuras de perfeição(aquelas que são quase macabras)que norteiam nossa cultura ocidental.
Ela falava da simetria incoerente das coisas e da ligação mística dos acontecimentos nas vidas das pessoas(mesmo daquelas pessoas mais desconhecidas e distantes) e eu seguia a imaginar a existência possível de uma dimensão,paralela à nossa,onde tudo já aconteceu e outros de nós já vivenciaram o desfecho de suas histórias.
Nesse enredo de 'deja vu',questionei o caráter manipulador desse universo,que tal qual deus de nossas vontades,impõe-se aos nossos caminhos.De modo que, nunca resta-nos escolha alguma.Pensei,então, em deitar-me e não mais me levantar,na tentativa de desafiar esse deus, corrupto e hostil , que faz de nós seus fantoches.Porém,exitei não conseguir.Ninguém consegue...
Desde então,nada posso fazer sem que me venha à mente a existência de uma réplica minha vivendo em outra dimensão.Vivendo em um universo paralelo.Ás vezes até mesmo chego a suscitar a possibilidade de ser eu mesma essa réplica.
Na hipótese de mundos possíveis,chego a descobrir-me repleta de uma humanidade medíocre.Fatalmente entregue ao misterioso destino.Sinto-me,constantemente,engolida pelo nada.Sou esse nada...
A ideia de ter uma cópia,ou mesmo de ser uma,sufoca meus sentidos.Sinto-me confusa.Tão confusa quanto na primeira vez em que li "A Canção de Amor de J.Alfred Prufrock",na qual Elliot expressa a ânsia de jamais ousar interromper a ordem natural do universo:"Sigamos então,tu e eu,enquanto o poente no céu se estende como um paciente anestesiado sobre a mesa (...) Ousarei comer um pêssego,interferindo no silêncio do universo? (...)"
Muito mais do que a dor da ausência e da falta,sempre temi ter tudo.Agora, que minhas mãos parecem tocar extremidades longínquas do céu,planejo dias de glória sobressaltados de timbres e nuances de felicidade suprema.Eis meu dilema:Como ouso ser feliz?Logo eu,que praguejei por décadas,os precursores da utópica felicidade...Logo eu,que me deleitei ao ler Cioran e Camus.Vivendo guiada pela languidez dos poetas malditos,em tardes infindas de desesperança...Como posso corromper-me,deliberadamente,em circunstâncias corriqueiras e pitorescas?
Nessa angústia regada à culpa de me sentir feliz,gasto meus segundos de êxtase fugidio,açoitando minha alma com acusações de minha consciência.Essa consciência vadia,que tal qual o "morcego" de Algusto dos Anjos,insiste em perturbar a tranquilidade do meu sono.Tão sonhado sono.Tenho vivido como Eva,no paraíso,sob os olhos violentos de Deus e da serpente.Repelida pelo desejo contínuo de saborear a maçã,tenho salivado excessivamente distante dos sóis e das luas desse céu oblíquo de possibilidades passageiras.
Quão escrupulosa pode ser uma alma que não almeja a felicidade?
(...)
Lavo-me dos sonhos.Lavo essa felicidade visceral e invicta que se agrava em minhas veias.Lavo-me desse torpôr furtivo e febril dos meus anseios de fervor voluntarioso e poético.
Agora,lavo minhas mãos.Inicio o ritual que,por uma infinidade de vezes,repito freneticamente.Se me fosse possível,dissolveria o meu corpo na água.Daí em diante,estaria livre da obssessão fatídica que arrasta minhas feridas pelo chão do tempo.
"Sigamos então,tu e eu."Seria confortante acreditar na existência de outra de mim.Outra mais perfeita e menos humana.É dela que me aproximo no momento disforme do meu ritual de redenção.Para onde elas iriam depois?À finitude ou à eternidade das coisas?
Lavo-me porque ainda há esperança e porque ,talvez,num universo paralelo,a outra creia no transpôr das horas e no amanhecer dos nossos olhos em comunhão.Lavo-me porque o ritual é só o que me resta.

Diane

sábado, 10 de dezembro de 2011

Resquícios




O passado é um fantasma.Fantasma que assombra o sono,a fome,a sede e a capacidade de euforia.Um fantasma silencioso e persistente que sussurra nas gotas de chuva que caem no solo.Os pingos latejam no chão e atormentam a imaginação.A noite obscura e calada que engendra,em seu silêncio,o temor e o anseio.O frio desejado pelo corpo,que aguarda o efeito anestésico.O frio que congela a dor do medo...do passado.Mas o passado nem sempre passa.Insistente em suas memórias,vestido de semideus,o passado inibe nossos passos ao longo do caminho não percorrido.Aperta o peito,sufoca a respiração,bombardeia com o seu silêncio de mosteiro insubstancial,inatingível,inalcansável. O seu silêncio agride e fere muito mais do que mil punhaladas espalhadas pelo corpo inteiro.Transforma cada final de tarde em uma morte lenta e duradoura,que se sabe que será repetida no dia posterior e no outro,outro,outro,outro...
Outra.É tarde.
Devaneios
Ilusões
Lágrimas
Lembranças
Contemplação
Sublimação
Idealização
Desejos
Promessas
Perigoso e traiçoeiro como somente ele pode ser,o passado é uma divindade.Onisciente,onipotente e onipresente em quaisquer das estações.
Ele se personifica nos sons de objetos inanimados ou no ruído da cidade para,arrogantemente,esfregar na sua cara quão desprovida de sentido é a sua vida sem ele.
Sua aliada...A memória.Esse "reflexo" mental que se apodera de todos os seus sentidos e te acorrenta por tempo indeterminado ou...por um longo tempo até que seu equilíbrio se esgote e o seu "eu" se massacre de modo a quase inexistir completamente.
Culpas
Derrotas
Remorços
Revoltas
Tristezas
Angústias
Desespero
Dor
Até que um dia, você acorda e,cansado de esperar que o telefone toque,que batam à porta,que chegue a carta,o telegrama,o cartão-postal,as flores... a saudade...
Resolve abrir as portas,as janelas,a mente e o coração...para que o sol entre.
Você expulsa o passado.Inibe a memória.Evita todas as coisas antigas que te conduzam ao regresso.Limita espaços,muda caminhos,dôa roupas,cobre espelhos,esconde quadros.
E deixa o passado passar. Decide viver cada segundo de desespero( "ao final estará mais forte!",dizem),sucumbindo a cada golpe,à lassidão cotidiana de se estar vivo.
Entende,enfim,que a pena é necessária.
O ciclo se fecha.A ferida se fecha.A dor cessa.A memória adormece.
O passado passa.


Diane

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011


A dor D'Alma


A distorção.A total distorção e incoerência da vida,dos desejos,dos sonhos e das paixões.Esse era o olhar perplexo e angustiado lançado à existência.Essa era ela,Florbela D'Alma da Conceição Lobo Espanca,uma poetisa portuguesa de sensibilidade e intensidade maestral.


Provocadora do fator tempo,sempre entediada e angustiada por aventuras impossíveis,Florbela convertia sua dor em arte,enquanto vivia o luto eterno pela perda de seu querido irmão,Apeles Espanca.Amor triunfal que por diversas vezes foi relembrado por críticos literários que,ainda hoje,fazem analogias ao caso mítico de Ártemis e seu Apolo.


O Phatos moveu toda a existência de Florbela,que ansiava por tragédia.Como se somente o desfecho trágico fosse capaz de libertá-la de sua dor material e conduzí-la a uma existência superiormente sublime e digna de ser vivida.


A dor.Sempre a dor.Essa companheira inominável das horas malogradas de desespero e solidão.A solidão de alma incompreendida e contestada por tudo e por todos.Esse sentimento de isolamento perseguiu-a até a sua derradeira madrugada.Na coerência de um ritual que destôa todo o percurso previamente escrito por ela,em sua teatralidade quase que cotidiana,fechando um ciclo simétrico de desenfreios e insanidades.

Ódio?

Ódio por ele?...Se o amei tanto
Se tanto bem lhe quis no meu passado,
Se o encontrei depois de o ter sonhado
Se à vida assim roubei todo o encanto...

Que importa se mentiu?E se hoje o pranto
Turva o meu triste olhar,marmorizado,
Olhar de monja,trágico,gelado
Como um soturno e enorme Campo Santo!

Ah!Nunca mais amá-lo é já bastante!
Quero sentí-lo d'outra,bem distante,
Como se fora meu,calma e serena!

Ódio seria em mim saudade infinda,
Mágoa de o ter perdido,amor ainda.
Ódio por ele?Não...não vale a pena...




segunda-feira, 4 de julho de 2011

O menino que virou fumaça.



Hoje me lembrei dele.Do menino que queria tudo.Ele queria tudo tão imensamente,que nessa sua ânsia pela imensidão,virou fumaça.Eternizou-se.
O menino trazia em seus olhos aquela tristeza cansada...Aquela antiga conhecida das almas inquietas e entediadas com essa vida sem vento.
Tudo dele desapareceu,tudo nele desapareceu.Já não há vestígios ou indícios de que ele não tenha sido apenas uma miragem.Um sonho...um devaneio frenético de uma mente absorta.Ele adormeceu...e adormecido em si mesmo perdeu-se em seu labirinto de certezas confusas.
Virou a página do livro.Virou a esquina de casa.Virou a taça de vinho.Virou fumaça.
A fumaça se dissolveu espalhando-o por todo o ar.