O filósofo e escritor franco-argelino, Albert Camus, comumente é associado às temáticas da Condição Humana. Isso ocorre devido às suas obras do teatro e do romance (especialmente, “O Mito de Sísifo”, seguidos de “ O Estrangeiro” e “Calígula”) que lhe consagraram o título de Filósofo do Absurdo.
O pensamento de Camus divide-se em três momentos: O Lirismo; O Absurdo; A Revolta. Contudo, o que quase não se sabe é o quão comprometido esteve o pensador com as questões que ligam, diretamente, os sentimentos de angústia e dor à sensação do belo e do sublime.
Pretendo apresentar, nesse blog, algumas das reflexões camuseanas acerca dessa relação conturbada dos homens com o mundo, reflexões essas presentes em sua obra de juventude, O Avesso e o Direito (L’ENVERS ET L’ENDROIT). É diante dessa vivência dúbia, diante do infortúnio por permearem um solo mesclado de escuridão e luz, que Camus irá discorrer sobre essa confusa e constante ligação de matrimônio e divórcio que se desenlaça, talvez, alternada e incoerentemente.
Mesmo que esteja consciente da miserabilidade da condição humana, para Camus, o homem não pode negar as belezas do mundo (“A luz do sol”), mas se isso ocorre, fecunda-se a dupla humilhação: A Miséria e a Feiúra.
Os interesses humanos (as expectativas) conduzem os homens ao ressentimento, o que os tornam cegos diante de toda e qualquer beleza possível aos olhos, isso porque a ânsia e o descontentamento causam nos homens um desconforto capaz de fazer-lhes encolher os ombros e abaixar os olhos. Dessa forma, além de miseráveis (condição comum a todos, de algum modo) são anestesiados de modo à somente enxergarem o que é feio.
Albert Camus (1913-1960) escreveu O Avesso e o Direito aos 22 anos, entre 1935 e 1936. De fato, a condição humana é o seu grande tema e ele aborda-o com os condicionamentos de sua origem. Suas lembranças oscilam entre a miséria e o sol da Argélia: “A miséria impediu-me de acreditar que tudo vai bem sob o sol e na história; o sol ensinou-me que a história não é tudo.”
Nesse ensaio, o lirismo é evidente: Camus busca uma mediação. Procura encontrar o limiar perfeito que acredita existir entre pobreza e ostentação. O culto ao belo consiste, talvez, justamente em aceitar-se miserável, de modo a ter consciência plena de que o que nos pertence tão somente são o sol, o mar e todas as demais paisagens que, assim como nós, estão solitárias sob um mesmo céu.
O pensador crer estar em O Avesso e o Direito a sua fonte: “Cada artista conserva dentro de si uma fonte única, que alimenta durante a vida o que ele é e o que diz (...) Nesse caso, sei que minha fonte está em O Avesso e o Direito,nesse mundo de pobreza e de luz em que vivi durante tanto tempo,e cuja lembrança me preserva,ainda,dos dois perigos contrários que ameaçam todo artista:O ressentimento e a satisfação.”
Pensar questões desse âmbito nos leva à seguinte reflexão: Há, ainda, um sentido em viver, considerando que a miséria é o estado constante dos homens e que, não importa o que ocorra,(quaisquer que sejam as atrocidades cometidas pelos homens ou quaisquer que sejam as tragédias sofridas por eles), é consolador o bastante saber que o sol sempre irá nascer novamente?
Será que Camus estava certo ao afirmar que “Não há amor de viver sem desespero de viver”?
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