O AVESSO E O DIREITO
1937
“ ‘Ser’ é saber unir, em doses mais ou menos iguais,o natural e a arte”. Com essa afirmação, Albert Camus encerra o prefácio da reedição do seu livro “O Avesso e o Direito”, na tentativa de explicar sua resistência inicial à reedição das suas obras da juventude, devido à inexperiência que ele julgava conter em seus primeiros escritos. No entanto, o franco-argelino assume-se tal qual Stendhal, que um dia exclamou: “Mas a minha alma é um fogo que sofre se não arde”. Para tanto, como “não há luzes sem chamas”, Camus entrega-se à espera de que partilham todos os artistas que buscam o consentimento em viver. Ciente de que essa é, muito provavelmente, uma espera vã, concorda em tornar públicas as suas reflexões joviais que, para ele, são repletas de “excessiva inabilidade e desordem”.
Sonhos, ilusões, belezas, feiúras, vida, morte, lugares, silêncio, abandono, loucura e todo o universo da condição humana. É disso que fala Camus em “ O Avesso e o Direito”. Obra essa considerada pelo autor como ensaio que instaura um emaranhado de contos e reflexões entrelaçados, de algum modo, pela presença de um elemento comum a todos: A impotência e submissão dos homens, que cambaleiam sobre uma corda bamba que liga miséria e sol. Eis, crua e nua, a condição humana: Tal qual Sísifos, estamos presos a essa teia de dor e prazer que nos enlaça à condição de humanos.Estamos sujeitos, constantemente, à impiedosa pobreza, mas ainda e,misteriosa e inesperadamente, provamos o sabor caloroso do sol e das luzes. A arte consiste, justamente, em sonhar no momento do próprio exilo ou, ainda, encontrar-se em um país estranho. Camus sabe que “não é difícil achar-se em uma cidade, o difícil – e o que realmente importa – é perder-se nela: “Todo país onde não me entedio é um país que nada me ensina.” É o modo como essa busca por si próprio ocorre, que define o tipo de vida que o homem terá: De ressentimento e revolta ou de resignação e aceitação às mazelas que são inevitáveis: “ A miséria impediu-me de acreditar que tudo vai bem sob o sol e na história;o sol ensinou-me que a história não é tudo.”
Camus atenta-nos ainda para uma questão relevante: “Não há amor de viver sem desespero de viver”. O amor é, na verdade, o principal tema abordado em suas obras. Um amor estranho de aceitação e prazer por esse estado de constante abandono ao destino, de modo que se recusa a extrema miséria (que priva os homens até mesmo do sol).
O sol e o mar devem iluminar esse mundo de extrema pobreza. Esses são os dois elos necessários à todo artista, segundo a perspectiva camuseana: A recusa e o consentimento. Ambos são indissociáveis.
O lirismo é uma característica evidente nos escritos de juventude de Albert Camus (1913 – 1960). Mais especificamente, essa característica torna-se notória em “O Avesso e o Direito”, cujos ensaios reunidos foram escritos em 1935 e 1936. Camus tinha 22 anos. O filósofo, na tentativa de defender que tal obra teria valor de depoimento e não um valor literário (filosófico) alega que “aos vinte e dois anos, exceto no caso dos gênios, mal se sabe escrever.”
A busca de significação da vida, para o pensador, torna-se possível através do contato com a natureza. Através de uma espécie de transgressão que se dá no momento exato em que o homem permite-se cultuar o belo: O mar, o sol, as cores do céu e todos os elementos (eternos) que, de um modo ou de outro, fazem parte do cotidiano das pessoas, independente de suas vontades. Esses elementos são de tal maneira fixos, que chegam a beirar o terror, mas, ainda assim, permeiam o sublime da condição humana. Não importa o que aconteça, o sol nascerá amanhã. Há aqui uma certa áurea de inveja da imortalidade. O culto ao belo remete ao culto dos homens (mortais) às divindades (imortais), que mescla admiração, apreço e desejo de posteridade.
O Lirismo concerne à fase em que Camus encontra a relação Homem-natureza. Já o Absurdo faz referencia às dificuldades de sustentação desse elo de ligação.
Elementos dos Contos:
A Ironia – A vivência da morte tende a aproximar as pessoas de si mesmas;
O horror em ficar só;
A velhice – silêncio e solidão.
Entre o sim e o não - Um emigrante retorna a sua pátria e percebe que conseguia compreender melhor o mundo na condição de “exilado”.
Cotidiano: Desespero, esperança, imagens.
“Só a imensa solidão do mundo me dá sua medida”.
As lembranças dividem a vida dos homens: Viver ou Recordar ???
“ A transparência e a simplicidade dos paraísos perdidos”.
Com a morte na alma - “ Todo país onde não me entedio é um país que nada me ensina.”
1) A melancolia e a angústia em sentir-se só, não reconhecido (resistência às mudanças, às limitações financeiras...).
2) A satisfação em encontrar-se na sua ligação com o mundo (a natureza), deixando de sentir-se só e conscientizando-se de que nada e tudo,ao mesmo tempo,lhe pertence.
3) As aparências (contrastes) das cidades/países induzem, significativamente, os sentimentos humanos:
a) Praga – Amargura, escuridão, desespero, feiúra, morte.
b) Vicenza – Doçura, luz, beleza, vida.
Amor pela vida – Ruas negras e silenciosas; luz e música; cores verde e cor-de-rosa.
“ O que dá valor à viagem é o medo. Ele quebra em nós uma espécie de cenário interior.”
“Estamos totalmente na superfície de nós mesmos”
O Avesso e o Direito – Uma mulher solitária e idosa recebe uma herança e compra uma cova. Apaixona-se por seu túmulo.
Encontra a felicidade não mais em ser desejosa da felicidade, mas sim em ser consciente.
A morte está sempre presente. Partilha do sol, das luzes, do céu, do vento e das flores. Eis a ironia: Não haver mistério algum pelo qual esperar. A morte é a eternidade
A filosofia literária do filósofo Franco-argelino Albert Camus e a poética filosófica da poetisa portuguesa Florbela Espanca se entrelaçam de maneira anacrônica e descompromissada.Ambos com as suas "ânsias de infinito", buscavam por aquilo que sabiam-se impossibilitados de encont rar:O sentido da vida.
quarta-feira, 16 de junho de 2010
O Divórcio do homem com a natureza
O filósofo e escritor franco-argelino, Albert Camus, comumente é associado às temáticas da Condição Humana. Isso ocorre devido às suas obras do teatro e do romance (especialmente, “O Mito de Sísifo”, seguidos de “ O Estrangeiro” e “Calígula”) que lhe consagraram o título de Filósofo do Absurdo.
O pensamento de Camus divide-se em três momentos: O Lirismo; O Absurdo; A Revolta. Contudo, o que quase não se sabe é o quão comprometido esteve o pensador com as questões que ligam, diretamente, os sentimentos de angústia e dor à sensação do belo e do sublime.
Pretendo apresentar, nesse blog, algumas das reflexões camuseanas acerca dessa relação conturbada dos homens com o mundo, reflexões essas presentes em sua obra de juventude, O Avesso e o Direito (L’ENVERS ET L’ENDROIT). É diante dessa vivência dúbia, diante do infortúnio por permearem um solo mesclado de escuridão e luz, que Camus irá discorrer sobre essa confusa e constante ligação de matrimônio e divórcio que se desenlaça, talvez, alternada e incoerentemente.
Mesmo que esteja consciente da miserabilidade da condição humana, para Camus, o homem não pode negar as belezas do mundo (“A luz do sol”), mas se isso ocorre, fecunda-se a dupla humilhação: A Miséria e a Feiúra.
Os interesses humanos (as expectativas) conduzem os homens ao ressentimento, o que os tornam cegos diante de toda e qualquer beleza possível aos olhos, isso porque a ânsia e o descontentamento causam nos homens um desconforto capaz de fazer-lhes encolher os ombros e abaixar os olhos. Dessa forma, além de miseráveis (condição comum a todos, de algum modo) são anestesiados de modo à somente enxergarem o que é feio.
Albert Camus (1913-1960) escreveu O Avesso e o Direito aos 22 anos, entre 1935 e 1936. De fato, a condição humana é o seu grande tema e ele aborda-o com os condicionamentos de sua origem. Suas lembranças oscilam entre a miséria e o sol da Argélia: “A miséria impediu-me de acreditar que tudo vai bem sob o sol e na história; o sol ensinou-me que a história não é tudo.”
Nesse ensaio, o lirismo é evidente: Camus busca uma mediação. Procura encontrar o limiar perfeito que acredita existir entre pobreza e ostentação. O culto ao belo consiste, talvez, justamente em aceitar-se miserável, de modo a ter consciência plena de que o que nos pertence tão somente são o sol, o mar e todas as demais paisagens que, assim como nós, estão solitárias sob um mesmo céu.
O pensador crer estar em O Avesso e o Direito a sua fonte: “Cada artista conserva dentro de si uma fonte única, que alimenta durante a vida o que ele é e o que diz (...) Nesse caso, sei que minha fonte está em O Avesso e o Direito,nesse mundo de pobreza e de luz em que vivi durante tanto tempo,e cuja lembrança me preserva,ainda,dos dois perigos contrários que ameaçam todo artista:O ressentimento e a satisfação.”
Pensar questões desse âmbito nos leva à seguinte reflexão: Há, ainda, um sentido em viver, considerando que a miséria é o estado constante dos homens e que, não importa o que ocorra,(quaisquer que sejam as atrocidades cometidas pelos homens ou quaisquer que sejam as tragédias sofridas por eles), é consolador o bastante saber que o sol sempre irá nascer novamente?
Será que Camus estava certo ao afirmar que “Não há amor de viver sem desespero de viver”?
O pensamento de Camus divide-se em três momentos: O Lirismo; O Absurdo; A Revolta. Contudo, o que quase não se sabe é o quão comprometido esteve o pensador com as questões que ligam, diretamente, os sentimentos de angústia e dor à sensação do belo e do sublime.
Pretendo apresentar, nesse blog, algumas das reflexões camuseanas acerca dessa relação conturbada dos homens com o mundo, reflexões essas presentes em sua obra de juventude, O Avesso e o Direito (L’ENVERS ET L’ENDROIT). É diante dessa vivência dúbia, diante do infortúnio por permearem um solo mesclado de escuridão e luz, que Camus irá discorrer sobre essa confusa e constante ligação de matrimônio e divórcio que se desenlaça, talvez, alternada e incoerentemente.
Mesmo que esteja consciente da miserabilidade da condição humana, para Camus, o homem não pode negar as belezas do mundo (“A luz do sol”), mas se isso ocorre, fecunda-se a dupla humilhação: A Miséria e a Feiúra.
Os interesses humanos (as expectativas) conduzem os homens ao ressentimento, o que os tornam cegos diante de toda e qualquer beleza possível aos olhos, isso porque a ânsia e o descontentamento causam nos homens um desconforto capaz de fazer-lhes encolher os ombros e abaixar os olhos. Dessa forma, além de miseráveis (condição comum a todos, de algum modo) são anestesiados de modo à somente enxergarem o que é feio.
Albert Camus (1913-1960) escreveu O Avesso e o Direito aos 22 anos, entre 1935 e 1936. De fato, a condição humana é o seu grande tema e ele aborda-o com os condicionamentos de sua origem. Suas lembranças oscilam entre a miséria e o sol da Argélia: “A miséria impediu-me de acreditar que tudo vai bem sob o sol e na história; o sol ensinou-me que a história não é tudo.”
Nesse ensaio, o lirismo é evidente: Camus busca uma mediação. Procura encontrar o limiar perfeito que acredita existir entre pobreza e ostentação. O culto ao belo consiste, talvez, justamente em aceitar-se miserável, de modo a ter consciência plena de que o que nos pertence tão somente são o sol, o mar e todas as demais paisagens que, assim como nós, estão solitárias sob um mesmo céu.
O pensador crer estar em O Avesso e o Direito a sua fonte: “Cada artista conserva dentro de si uma fonte única, que alimenta durante a vida o que ele é e o que diz (...) Nesse caso, sei que minha fonte está em O Avesso e o Direito,nesse mundo de pobreza e de luz em que vivi durante tanto tempo,e cuja lembrança me preserva,ainda,dos dois perigos contrários que ameaçam todo artista:O ressentimento e a satisfação.”
Pensar questões desse âmbito nos leva à seguinte reflexão: Há, ainda, um sentido em viver, considerando que a miséria é o estado constante dos homens e que, não importa o que ocorra,(quaisquer que sejam as atrocidades cometidas pelos homens ou quaisquer que sejam as tragédias sofridas por eles), é consolador o bastante saber que o sol sempre irá nascer novamente?
Será que Camus estava certo ao afirmar que “Não há amor de viver sem desespero de viver”?
domingo, 7 de março de 2010
sábado, 6 de março de 2010
Núpcias
"Caminhamos ao encontro do amor e do desejo. Não buscamos lições, nem a amarga filosofia que se exige da grandeza. Além do sol, dos beijos e dos perfumes selvagens, tudo o mais nos parece fútil. Quando a mim, não procuro estar sozinho nesse lugar. Muitas vezes estive aqui com aqueles que amava, e discernia em seus traços o claro sorriso que neles tomava a face do amor. Deixo a outros a ordem e a medida. Domina-me por completo a grande libertinagem da natureza e do mar."


"Penso agora em flores, sorrisos, desejo de mulher, e compreendo que todo o meu horror de morrer está contido em meu ciúme de vida. Sinto ciúme daqueles que virão e para os quais as flores e o desejo de mulher terão todo o seu sentido de carne e de sangue. Sou invejoso porque amo demais a vida para não ser egoísta... Quero suportar minha lucidez até o fim e contemplar minha morte com toda a exuberância de meu ciúme e de meu horror."
segunda-feira, 1 de março de 2010
O Avesso e o Direito
Camus: Entre a miséria e o sol
Repleta de beleza reflexiva é a filosofia de Albert Camus. Filósofo e escritor franco-argelino que voltou ao mundo o seu olhar repleto de perplexidade á condição humana.
Camus tinha apenas 22 anos quando publicou, em 1937, na Argélia, O Avesso e o Direito, conjunto de cinco peças que ele classificou de " ensaios literários".
Na 6ª edição de OAvesso e o Direito, em sua apresentação da obra, Moacyr Sciliar diz que " Condição humana,lugares.É disso que o jovem Camus fala nos ensaios deste livro".
O filósofo acreditava na beleza simplória em que consiste o antagonismo da existência. Todos os homens buscam sempre se encontrar. No entanto, há beleza o bastante em se estar perdido:
" Todo o país em que não me entedio é um país que nada me ensina".
Camus, em seu ensaio "Com a morte na alma"transcreve sobre o efeito que as viagens podem causar no espírito de um homem:
" Certa vez, no entanto, em um claustro barroco, no outro extremo da cidade, a suavidade da hora, os sinos que badalavam lentamente, grupos de pombos que se desviam da torre, algo assim como um aroma de ervas e de nada fez nascer em mim um silêncio todo povoado de lágrimas, que me colocou a um passo da libertação. E, ao voltar para o hotel à noite, escrevi, de uma só vez, o que se segue e que transcrevo fielmente, porque revejo na sua própria ênfase a complexidade do que eu então sentia: " E que outro lucro querer tirar da viagem? Eis-me sem enfeites. Cidade cujos cartazes não sei ler, caracteres estranhos, em que nada de familiar se fixa, sem amigos com quem falar, enfim, sem divertimento. Deste quarto até onde chegam os ruídos de uma cidade estrangeira, bem sei que nada pode me tirar para levar-me em direção à luz mais delicada de um lar ou de um lugar amado. Vou chamar, gritar? São rostos estrangeiros que surgirão. Igrejas, ouro e incenso, tudo torna a lançar-me numa vida cotidiana na qual minha angústia dá a cada coisa o seu devido valor. E eis que a cortina dos hábitos, o tecido confortável dos gestos e das palavras, em que o coração se acalma, soergue-se lentamente para, enfim, tirar o véu que revela a face macilenta da inquietação. O homem está cara a cara consigo mesmo, desafio-o a ser feliz... E, no entanto, é por aí que a viagem o ilumina. Faz-se uma grande desarmonia entre ele e as coisas. Nesse coração menos sólido, a música do mundo entra mais facilmente. Nesse grande despojamento, enfim, a menor árvore isolada torna-se a mais terna e frágil das imagens. Obras de arte e sorrisos de mulheres, raças de homens plantadas em sua terra e monumentos a que se resumem os séculos - é uma paisagem comovente e sensível que a viagem compõe. E, então, no fim do dia, esse quarto de hotel, onde alguma coisa novamente me torna oco, assim como uma fome da alma."

" (...) sei que minha fonte está
em O Avesso e o Direito, nesse
mundo de pobreza e de luz em
que vivi durante tanto tempo, e
cuja lembrança me preserva,
ainda,dos dois perigos contrários
que ameaçam todo artista: O
ressentimento e a satisfação.(...)
A miséria impediu-me de
acreditar que tudo vai bem
sob o sol e na história; o sol
ensinou-me que a história não
é tudo. Mudar a vida, sim,mas
não o mundo do qual eu fazia
minha divindade. Assim é,
sem dúvida, que adorei essa
carreira desconfortável em que
me encontro, enfentando
com inocência uma corda
bamba, na qual avanço com
dificuldade, sem estar seguro
de alcançar a outra ponta.
Em outras palavras,
tornei-me um artista, se é
verdade que não há arte sem
recusa nem consentimento."
Albert Camus
Repleta de beleza reflexiva é a filosofia de Albert Camus. Filósofo e escritor franco-argelino que voltou ao mundo o seu olhar repleto de perplexidade á condição humana.
Camus tinha apenas 22 anos quando publicou, em 1937, na Argélia, O Avesso e o Direito, conjunto de cinco peças que ele classificou de " ensaios literários".
Na 6ª edição de OAvesso e o Direito, em sua apresentação da obra, Moacyr Sciliar diz que " Condição humana,lugares.É disso que o jovem Camus fala nos ensaios deste livro".
O filósofo acreditava na beleza simplória em que consiste o antagonismo da existência. Todos os homens buscam sempre se encontrar. No entanto, há beleza o bastante em se estar perdido:
" Todo o país em que não me entedio é um país que nada me ensina".
Camus, em seu ensaio "Com a morte na alma"transcreve sobre o efeito que as viagens podem causar no espírito de um homem:
" Certa vez, no entanto, em um claustro barroco, no outro extremo da cidade, a suavidade da hora, os sinos que badalavam lentamente, grupos de pombos que se desviam da torre, algo assim como um aroma de ervas e de nada fez nascer em mim um silêncio todo povoado de lágrimas, que me colocou a um passo da libertação. E, ao voltar para o hotel à noite, escrevi, de uma só vez, o que se segue e que transcrevo fielmente, porque revejo na sua própria ênfase a complexidade do que eu então sentia: " E que outro lucro querer tirar da viagem? Eis-me sem enfeites. Cidade cujos cartazes não sei ler, caracteres estranhos, em que nada de familiar se fixa, sem amigos com quem falar, enfim, sem divertimento. Deste quarto até onde chegam os ruídos de uma cidade estrangeira, bem sei que nada pode me tirar para levar-me em direção à luz mais delicada de um lar ou de um lugar amado. Vou chamar, gritar? São rostos estrangeiros que surgirão. Igrejas, ouro e incenso, tudo torna a lançar-me numa vida cotidiana na qual minha angústia dá a cada coisa o seu devido valor. E eis que a cortina dos hábitos, o tecido confortável dos gestos e das palavras, em que o coração se acalma, soergue-se lentamente para, enfim, tirar o véu que revela a face macilenta da inquietação. O homem está cara a cara consigo mesmo, desafio-o a ser feliz... E, no entanto, é por aí que a viagem o ilumina. Faz-se uma grande desarmonia entre ele e as coisas. Nesse coração menos sólido, a música do mundo entra mais facilmente. Nesse grande despojamento, enfim, a menor árvore isolada torna-se a mais terna e frágil das imagens. Obras de arte e sorrisos de mulheres, raças de homens plantadas em sua terra e monumentos a que se resumem os séculos - é uma paisagem comovente e sensível que a viagem compõe. E, então, no fim do dia, esse quarto de hotel, onde alguma coisa novamente me torna oco, assim como uma fome da alma."

" (...) sei que minha fonte está
em O Avesso e o Direito, nesse
mundo de pobreza e de luz em
que vivi durante tanto tempo, e
cuja lembrança me preserva,
ainda,dos dois perigos contrários
que ameaçam todo artista: O
ressentimento e a satisfação.(...)
A miséria impediu-me de
acreditar que tudo vai bem
sob o sol e na história; o sol
ensinou-me que a história não
é tudo. Mudar a vida, sim,mas
não o mundo do qual eu fazia
minha divindade. Assim é,
sem dúvida, que adorei essa
carreira desconfortável em que
me encontro, enfentando
com inocência uma corda
bamba, na qual avanço com
dificuldade, sem estar seguro
de alcançar a outra ponta.
Em outras palavras,
tornei-me um artista, se é
verdade que não há arte sem
recusa nem consentimento."
Albert Camus
Assinar:
Comentários (Atom)

