
O seu silêncio me açoitava.Havia,na mudez obstinada daquele olhar,um quê de sombria inquisição.Como se todos os meus passos fossem demoníacos a ponto de não dispensarem um segundo,sequer de distração ou descuido.Aqueles olhos,que me seguiam por toda parte,sempre como um dedo indicador apontado para o meu cérebro.Olhos que só se fechavam para conceber um sono de premonições absurdamente doentias e ignóbeis(quase sempre a meu respeito!)
Ficava por horas contemplando a sua própria matéria.Tentava decifrar o conteúdo daquela alma obscura de imprevisibilidades.Nada encontrava.Nada poderia encontrar.Talvez precisasse se deitar nua sobre o chão frio do quarto,coberta pela negra escuridão.Assim era mais fácil tocar o seu élan com o universo.Com as luzes apagadas era possível tocar o interior de si própria e as extremidades do mundo.
Às vezes era doce.Era indescritível aquela doçura.Como se rogasse a si mesma por compaixão.E essa condescendência de humor ia da acusação ao amor,em um espaço de tempo tão curto,que se tornava cada vez mais difícil mensurá-lo.De todo modo,improvável seria resistir àquele encanto!Eu sempre cedia e,ainda hoje cedo,sempre que aqueles olhos de abismo celeste me flertam a alma.
Depois de vinte e seis primaveras escarlates,seus olhos foram se afastando,curiosamente,dos meus.Sempre que deles eu me aproximava ou ameaçava aproximar,se encolhiam em gestos de agoniada angústia.Desviava-se com ar de repulsa odiosa.Defendia-se da minha presença,como quem se preserva de um ser terrível.
Em meu íntimo,sentia que aqueles temores não eram assustadoramente definitivos.
Dolorosamente,no entanto com certo torpor,me acostumei àquele desprezo passivo e aniquilador.Passava noites em claro tentando reaver os delírios daqueles olhos tépidos,que outrora sufocaram meus desejos enclausurados e que,repentinamente,me abandonaram ao léu.
Apelei de todas as formas:Sorri,chorei,calei,gritei e nada...Ela permanecia intacta.Desesperadoramente gelada e muda.Os olhos permaneciam cerrados,fugidios e hostis.Foi quando,em uma manhã de junho,resolvi esquecer para sempre.Vesti-me e,de costas para ela,saí de casa sem ao menos encarar sua face.Nessa altivez de espírito ferido,permaneci invicto,sem titubear por um instante sequer.Assim segui,por dias a fio,como quem tenta apagar traços de morbidez em seu passado.
Fingia não notá-la cabisbaixa pelos cantos da casa ou caminhando,vagarosamente,dentro dos cômodos escuros.Seu vulto às vezes se confundia com almas penadas que não conseguem dormir ou acordar.
Fui forte (tanto quanto pude ser!)...O bastante para evitar percorrer caminhos em que houvessem quaisquer objetos que produzissem reflexos.Passei a escovar os dentes na pia da cozinha e me vestir na sala.Percorria as ruas da cidade que não tinham lagos,desviava de igrejas com vitrais.
Diante do incômodo contínuo que dificultava a minha rotina,resolvi cobrir os vidros e espelhos de casa com lençóis e toalhas.Guardei todas as taças e os talheres de inox.
Curiosamente,notei que eram vãos todos os meus esforços por que ela permanecia lá.A sua presença oculta tornara-se ainda mais forte com o passar dos dias.A morbidez do seu silêncio estridente ensurdecia os meus sentidos.Eu sabia que ela estava lá e ela estava o tempo todo.Todo o tempo.
Depois de dois dias tornou-se insuportável aquele jejum visual.E aquela situação nebulosa tornou-se infundada.Concluí que já não seria possível sustentar aquela atmosfera de falsa separação.
Senti-me cretinamente egoísta e hipócrita.Resolvi retirar os lençóis e toalhas,abri as janelas e portas e fui caminhando até o quarto,onde ela se tornava mais nitidamente visível.Foram passos de regresso em tom de escusas e lágrimas.
Eu desejei a mais bela das remissões.Idealizei um encontro pleno,que reavivassem minhas entranhas.
E lá estava ela:Com a alma repleta de doce submissão e bondade.Transbordando anseios bipolares.Sempre entregue aos meus caprichosos intuitos de reflexão e glória.Ela,que sempre se comprazia em meus deleites imaginários e exaltava-me em sua inocência pueril de sublime veneração aos sonhos e planos desejosos.
Naquele momento eu pude compreender que,independente do que quer que houvesse,ela estaria lá.Sim.Ela estaria lá até que os meus olhos(uma vez cansados)se fechassem.Ela me seria eterna enquanto eu existisse.
Ela era eu.Eu ainda sou ela.

