sábado, 6 de março de 2010

A Miséria ...


« Os tristes têm duas razões para o ser: ignoram ou esperam »


O Sol ...


« Você sabe o que é o encanto? é ouvir um sim como resposta sem ter perguntado nada »


Núpcias

"Caminhamos ao encontro do amor e do desejo. Não buscamos lições, nem a amarga filosofia que se exige da grandeza. Além do sol, dos beijos e dos perfumes selvagens, tudo o mais nos parece fútil. Quando a mim, não procuro estar sozinho nesse lugar. Muitas vezes estive aqui com aqueles que amava, e discernia em seus traços o claro sorriso que neles tomava a face do amor. Deixo a outros a ordem e a medida. Domina-me por completo a grande libertinagem da natureza e do mar."









"Penso agora em flores, sorrisos, desejo de mulher, e compreendo que todo o meu horror de morrer está contido em meu ciúme de vida. Sinto ciúme daqueles que virão e para os quais as flores e o desejo de mulher terão todo o seu sentido de carne e de sangue. Sou invejoso porque amo demais a vida para não ser egoísta... Quero suportar minha lucidez até o fim e contemplar minha morte com toda a exuberância de meu ciúme e de meu horror."

segunda-feira, 1 de março de 2010

O Avesso e o Direito

Camus: Entre a miséria e o sol

Repleta de beleza reflexiva é a filosofia de Albert Camus. Filósofo e escritor franco-argelino que voltou ao mundo o seu olhar repleto de perplexidade á condição humana.
Camus tinha apenas 22 anos quando publicou, em 1937, na Argélia, O Avesso e o Direito, conjunto de cinco peças que ele classificou de " ensaios literários".
Na 6ª edição de OAvesso e o Direito, em sua apresentação da obra, Moacyr Sciliar diz que " Condição humana,lugares.É disso que o jovem Camus fala nos ensaios deste livro".
O filósofo acreditava na beleza simplória em que consiste o antagonismo da existência. Todos os homens buscam sempre se encontrar. No entanto, há beleza o bastante em se estar perdido:
" Todo o país em que não me entedio é um país que nada me ensina".
Camus, em seu ensaio "Com a morte na alma"transcreve sobre o efeito que as viagens podem causar no espírito de um homem:
" Certa vez, no entanto, em um claustro barroco, no outro extremo da cidade, a suavidade da hora, os sinos que badalavam lentamente, grupos de pombos que se desviam da torre, algo assim como um aroma de ervas e de nada fez nascer em mim um silêncio todo povoado de lágrimas, que me colocou a um passo da libertação. E, ao voltar para o hotel à noite, escrevi, de uma só vez, o que se segue e que transcrevo fielmente, porque revejo na sua própria ênfase a complexidade do que eu então sentia: " E que outro lucro querer tirar da viagem? Eis-me sem enfeites. Cidade cujos cartazes não sei ler, caracteres estranhos, em que nada de familiar se fixa, sem amigos com quem falar, enfim, sem divertimento. Deste quarto até onde chegam os ruídos de uma cidade estrangeira, bem sei que nada pode me tirar para levar-me em direção à luz mais delicada de um lar ou de um lugar amado. Vou chamar, gritar? São rostos estrangeiros que surgirão. Igrejas, ouro e incenso, tudo torna a lançar-me numa vida cotidiana na qual minha angústia dá a cada coisa o seu devido valor. E eis que a cortina dos hábitos, o tecido confortável dos gestos e das palavras, em que o coração se acalma, soergue-se lentamente para, enfim, tirar o véu que revela a face macilenta da inquietação. O homem está cara a cara consigo mesmo, desafio-o a ser feliz... E, no entanto, é por aí que a viagem o ilumina. Faz-se uma grande desarmonia entre ele e as coisas. Nesse coração menos sólido, a música do mundo entra mais facilmente. Nesse grande despojamento, enfim, a menor árvore isolada torna-se a mais terna e frágil das imagens. Obras de arte e sorrisos de mulheres, raças de homens plantadas em sua terra e monumentos a que se resumem os séculos - é uma paisagem comovente e sensível que a viagem compõe. E, então, no fim do dia, esse quarto de hotel, onde alguma coisa novamente me torna oco, assim como uma fome da alma."









" (...) sei que minha fonte está
em O Avesso e o Direito, nesse
mundo de pobreza e de luz em
que vivi durante tanto tempo, e
cuja lembrança me preserva,
ainda,dos dois perigos contrários
que ameaçam todo artista: O
ressentimento e a satisfação.(...)
A miséria impediu-me de
acreditar que tudo vai bem
sob o sol e na história; o sol
ensinou-me que a história não
é tudo. Mudar a vida, sim,mas
não o mundo do qual eu fazia
minha divindade. Assim é,
sem dúvida, que adorei essa
carreira desconfortável em que
me encontro, enfentando
com inocência uma corda
bamba, na qual avanço com
dificuldade, sem estar seguro
de alcançar a outra ponta.
Em outras palavras,
tornei-me um artista, se é
verdade que não há arte sem
recusa nem consentimento."

Albert Camus